terça-feira, 16 de abril de 2013

Rimas Infantes


A breve memória vaza dos olhos
O corrente tempo que não mais
Pois tudo é apenas rasa história
A estação em que nasceu a paz
Os brinquedos e livros antigos
Abrigos na floresta do quintal
Fantasias, medos, miragens
Meras imagens da vida real
Uma infância quiçá hebetada
Uma lágrima doce de amor
Esta ânsia que ainda guardada
Sempre que me visita esta dor
O aroma branco do leite de rosas
As prosas e contos na noite abismada
Um encontro mudo de mãos misteriosas
E hoje este tudo parece ser nada.


domingo, 14 de abril de 2013

Canção do Noturno Mar

Mar que estala nos flancos
De minha cidade
Longínquos bancos de areia
Na aldeia da modernidade
O morro observa os fragores
A espuma, o hiato contido
Um silêncio entre amores
Da grande onda que vem
Da lua noite apagada
Deste momento único
Que os índios conhecem
Quando descem e param
Para ver
Para domar as águas
As que vêm do mar
E as que depois fazem chover
...

Peito que inspira o ar molhado
Dentro do vento parado
Perto da hora de ir
Um pensamento deixa a praia
A praia que na maresia acabou
Na maresia acabou de sumir.



sábado, 13 de abril de 2013

Imundo Submundo


Que tenho eu com as ruas da madrugada
Por onde cães esquecidos reviram o lixo
E os bêbados sem dono ladram
Que tenho com as calçadas sujas
Absorventes usados e cacos de cascos verdes
Quanta desilusão, engano e degredo
Tudo começara alegre como sempre
Que tenho eu com as fantasias imbecis
O buraco vazio no plexo dos fantoches
A alcateia dos paspalhos eufóricos
Os desmamados por detrás dos volantes
Que tenho eu com o vômito pisado nos toaletes
E a baba na camisa nova para pagar em janeiro
Que sei eu desta infelicidade toda
Que não a minha própria indiferença
Meus sentimentos cristalizados de desdém
Minha película escura a setenta por cento
E as esposas tirarão as meias entre palavrões
Quando amanhã será como outro qualquer
E as culpas se afogarão no ébrio inconsciente
E mais uma vez alguém assiste às gargalhadas
Que tenho eu com as fortunas destes patifes
Que enfeitam esta morte que custa tão caro.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Suicida


A moça confusa
Correndo obtusa
Pela rua
Nua sob a luz do poste
Ela é doida
Não encoste
Nem pense em contrariar
A moça entrou num bar
Gritando
Todos hirtos de medo
Depois saiu correndo
Cantando
Não contou nenhum segredo
Foi vista na beira do cais
Depois disso
Nunca mais.



quinta-feira, 11 de abril de 2013

Mágoa Maré


Uma lassidão de alma
Deixa o mar quase parado
De navegar anda tão cansado
Este imenso e antigo mar...
As vagas turbilhoando lá fora
Tudo abranda silêncio e lembrança
Este mar que é só mágoa e demora
Mas que ainda deságua esperança.


domingo, 7 de abril de 2013

Classificados


Quem achou um coração
Perdido feito um cão
Favor devolver
Precisa-se de afeto
Para estar sob o mesmo teto
Sem nunca se arrepender
Procura-se a felicidade
Recompensa-se bem
E não há necessidade
De vir junto com alguém
Mais uma observação
Dirigida a quem lê:
Se por acaso encontrar a dor
Ainda que disfarçada de amor
Esta pode levar para você.


sábado, 6 de abril de 2013

Quadras Relativas


Um silêncio pode conter o mundo
Um pensamento pode te salvar
Uma ideia pode caber num segundo
Mas pode precisar de anos para se realizar

Quem disse que viu pode ser que não tenha visto
Quem viu pode não ter muito bem entendido
Sofrer a coisa é discernir entre aquilo e isto
Amar é a única forma de dizer que foi vivido

Nem sempre quando se perdoa se esquece
Talvez esquecer demore existências
Com o tempo aquilo tudo se desvanece
E ali vão aparecendo outras referências

Como uma pessoa pode parecer bondosa
E ao mesmo tempo ser tão repulsiva?
Outra que é tida como sendo escabrosa
Por sua vez pode ser muito mais compassiva

O todo pode ser confundido com a parte
A parte pode parecer não ser nada
Nem tudo que o artista faz é arte
Pois até mesmo a arte pode ser enganada.


sexta-feira, 5 de abril de 2013

Licença Poética


Sou um mistério que se move invisível.
Quero crer que há um poema certo
Para todo o tipo de emoção humana.
Eu precisaria extrair do presente momento
A palavra que acabasse por me redimir
De ir sempre tão fundo nas pessoas.
Diria: Ora! Não se assuste: é só poesia.
Mas tudo acaba soando como um julgamento
E muito inconveniente pode até já ter causado.
Sou uma folha nova de papel carbono,
Uma areia imaculada de praia de manhã:
Qualquer pequeno traço me fere e marca,
A mínima esfregada mancharia a roupa branca,
Borraria os dedos dos muito límpidos entes.
E vejo o que todo mundo que tem olhos vê,
Apenas é como se me dirigisse aos espaços,
As formas entre as coisas que realmente são.
Mas acontece que o que importa são as coisas,
Os espaços entre elas são blasfematórios.
Minha ética é ter paciência para entender,
Minha moral é duvidosa tanto quanto eu sou
Se ficar calado como ficam os restantes,
Se não pronunciar as “palavras proibidas”,
Posso continuar gozando de liberdade,
Uma liberdade condicional, é bem verdade,
Mas ainda assim muito valiosa,
Valiosa e necessária como uma ração.


quinta-feira, 4 de abril de 2013

Estio


Não há qualquer inspiração
Apenas o corpo vazio e sem alma
A página lívida, inexpressiva
Calada a fonte de onde brotava
A água viva das palavras
Agora é só o veio seco
As pedras do fundo ao sol
Não há nenhuma fertilidade
Nem mesmo um tolo verso
Que o poema, antes submerso
Agora é fóssil, quase que pó
A sílaba labiada sussurra
O som que não diz mais nada
O símbolo sem sentido
Como uma língua morta
Uma espécie de silêncio imposto
O texto disforme e debilitado
Um idioma que se extinguiu

Não há cura para o que é de fato
Apenas o tempo, cada vez mais lento
E aquele improvável momento exato
Que parece que nunca existiu.



quarta-feira, 3 de abril de 2013

Do Passado Tardio


À sombra do Pau d’Alho
Às margens do rio Paraíba
Vejo vales verdes e calmos
Sonho com os espinhaços
As pedras lias da Guanabara
Estou com os pés molhados
Da pouca água do Banabuiú
A seca é minha geografia
E um cio calafrio sobe o talo
Enquanto me calo de medo
Meteoros no céu de Quixadá
O chá mate ainda tão planta
Na noite do istmo que cai
Sobre os telhados do Iguape
Os bambus do aeroporto
No caminho de Salvador
A marina de Jeri em silêncio
Eu tenho andado distante
À beira do cimo penhasco
Deitado no córrego limpo
Os jatobás escorregadios
A serra do Ipu da bica alta
O pão assando e o trem
Sempre falarei deste trem
Madruga em Maranguape
O primeiro voo hipnótico
A primeira solidão vazia
As ruas da Vila Olímpia
A ponte de Guararema
O sol em Paranapiacaba
Os fantasmas na velha gale
Hoje eu quase me esqueço.


terça-feira, 2 de abril de 2013

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Plágio Sofrido


Você sofre
Lava os tênis
Põe para secar
Na frente do ventilador
Na sala de estar
Do apartamento inútil
Você sofre
E esquece
Tanto tem a fazer
E é tão incompleto
Necessita ser notado
Mas a vida é trapaça
Do destino
De deus
De si própria
A vida é bela
Ainda assim
E suas pernas doem
Pois correu na esteira
E o suor como um riso
Que se vai buscar num gibi
Apenas para se rir postiço
Seu suor é cenográfico
Seu silêncio é cenográfico
Suas roupas
Sua máscara trincada
Você sofre
E ainda assim a culpa é dos outros
Que não souberam como fazer
Para ficar mais fácil de você amar
Você que se soubesse o que é amor
Nem assim sabe se se amaria
Se pensasse nas prostitutas
A essa hora da madrugada
Acompanhadas de idiotas bêbados
Ou o que é pior
Acompanhadas de bêbados covardes
Você é tão covarde...
Sempre a um passo de entender
Desiste
Sempre perde o gol da prorrogação
Os três minutos finais
Podem servir para muita coisa
Na vida de um moribundo
Você não é o único
Que não recebeu o papel principal
Só que você não se contenta
Não percebe que o tempo passou
E continua tentando
Lutando
Organizando suas miudezas
Na prateleira de quando era rapaz
Olhando para o teto e dizendo
Você nem sabe o que dizer
É incrível sua procrastinação
É medonha sua soberba
Até sua dor é de mentira
Você sai cedo e se atrasa
Você dorme e acorda exausto
Você treme diante da dúvida
Você sofre
Escova os dentes
Olha-se no espelho
Foge
Você cumpre as regras
Mas nunca venceu este jogo
Você é o tipo de plágio
Que nem assim funciona
José
Ou seria Mané?
É
Mané.
E agora
Mané?


domingo, 31 de março de 2013

Crepúsculo à Beira Mar (óleo)


O mar dourado cuspindo peixes
O sol nas cristas e a tarrafa
A areia bruma e peneirada de maré
O coqueiro sozinho e breve
                                    Um horizonte
                                    Depois da ponte
                                    Quase distante
                                    Se não fosse ali
A água cálida de movimento
Os pássaros rutilando o roxo céu
Entre nuvens derradeiras
Que sempre a tarde já vai cair
O som dos silêncios entre as ondas
O hiato de haver gravitação
O sangue pulsando oceânico
E as sereias embebedadas
As proas no Cabo do Futuro
Os pedregulhos submersos e lodos
A velha carcaça do náufrago galeão
Uma brisa nua
Um ocaso esquecido
A maresia com aroma de carne crua
E um terço do que ainda se vê
A praia está escurecendo
O sol descendo sob a barra de fogo
As casas acendendo as vidas
E a noite que vai chegar só
                                    O betume
                                    As jangadas
                                    As cordas
                                    As velas
                                    O nó.


sábado, 30 de março de 2013

Idade: O Nome do Tempo


A mesma idade que nos arrebata,
Que vai deixando as coisas para trás,
Vai consumindo correntes e algemas,
Quando então as portas se abrem
E nem notamos que já é de manhã.
A mesma ilusão que nos compeliu,
Mesmo que agora arrefecida e muda,
Mesmo que há tanto tempo guardada,
Servirá de indumentária à festa que virá.
Assim como também nos fará companhia,
Pois dia chegará em que estaremos prontos.
Não como estivemos antes de tudo ruir,
Estaremos vazios de dor, de passado, de nós.
Para que tudo o que nos faltou nos esqueça
E as fantasias que restaram comecem a sorrir.
E os dias sejam apenas caminhos serenos
Por onde nossas mais despojadas alegrias.
Somos agora como que um veio de vida
E as nossas lembranças não mais atemorizam,
Os nossos pretextos perderam a razão.
A mesma idade que nos experimenta,
Que nos vai ensinando de erro em erro,
Mostrando-nos o quanto que tudo passou,
É o nome do tempo perdido no âmago ser
Que em cada um de nós se deixou resgatar.



sexta-feira, 29 de março de 2013

Distraído Coração


Tenho o coração debruçado
Na janela que dá para a solidão
Meu peito roça as plantas do jardim
As plantas que cresceram demais
Meu olhar por trás da água das casas
Vê muito além de seus quintais
Tenho o coração agarrado
A um feixe de lembranças sem cor
Este peso que me mantém acordado
Para eu não ser tragado pela dor
Mas é apenas um enredo muito antigo
Um medo que insiste em seu castigo
Nem sequer uma lágrima merece
Tenho o coração todo em prece
Sem mesmo ao menos balbuciar
Tenho este não que nunca me esquece
E que só me aparece assim, sem avisar.


quinta-feira, 28 de março de 2013

Um Que Resiste

É estranho parecer que faz sentido
A solidão com suas horas mastigadas
Tudo são agoras e outras noites passadas
De onde me perco sem nem bem querer voltar
Quase me dissolvo enquanto apenas respiro
De tanto que o silêncio que se instaurou me leva
Antes mesmo que amanheça e o graal dia
Quem sabe se não me esqueci foi de acordar
É o aferro que a mão do pensamento gira
Numa grande roda de agonia medieval
É distintamente nobre essa dura obstinação
Que estoica e insiste em minha caixa craniana
Contorcendo os nervos azulados e frágeis
Como uma sede de depois de depois de amanhã
É intenso o surrealismo que apregoa em vão
Nas pinceladas gestuais desta hemoptise
Tanto que começo a gargalhar – de dor
Antes de desfalecer inútil ao meu algoz
Os gritos no corredor de pedra cessaram
O rangido das cordas velhas se calou
Só o arfar tirano de cansaço e interrogação
Mas contem lá que na verdade estou vivo
E que muito ainda há para se saber.


quarta-feira, 27 de março de 2013

Contemplativa


Eu passo uma noite inteira olhando o céu
Fico tão ausente que pareço evaporar
Num instante o pensamento vaga ao léu
E no outro eu simplesmente paro de pensar
E olhem que isto me basta
A despeito desta minha vida gasta
Que só faz é querer me acabrunhar
Eu fico extasiado com as flores do mato
Que sabem o momento exato
De esperar a chuva cair para desabotoar
Nem mesmo elas têm olor
São tal e qual uma espécie de flor
Que assim como alguns tipos de amor
Só foram feitos pra gente olhar
E o mar, que dizer do intrigante mar
Com seu semblante de pura calmaria
Que só dura até que o vento
Com seu movimento e sua rebeldia
Resolva se rebelar
Isto sem falar nos animais e plantas
De cujas variedades são tantas
Que é quase impossível de se contar
Tudo é tão majestoso e perfeito
Que até o mais escabroso defeito
A seu modo e a seu jeito
Foi feito para nos conquistar
Por isso não me digam
Que eu preciso de algo mais
Do que estes meus sentidos
E de toda a ocorrente natureza
Para eu poder apreciar
Porque se eu quiser ter paz
Mais do que haveres proibidos
Prefiro olhar esta beleza
E os prazeres consentidos
Que somente ela pode me dar.



terça-feira, 26 de março de 2013

Missiva


Solidão nua
Rua de dor vazia
O amor mandou avisar
– não adianta esperar –
Que esta noite ele não viria.


segunda-feira, 25 de março de 2013

Pronuncia

Hay un certo peligro 
Tu nombre 
Que sé dice al nada del viento 
Es más cercano el milagro
Milagro del pensamiento
Deflagra en sentido 
Sentido de ser temprano
Tu nombre, el sonido 
De todo lo que es ser humano.




domingo, 24 de março de 2013

Eu Poético


Se a poesia some
Fico meio ausente
Meio sem nome
Quando ela se cala
Minha boca se fecha
É meu peito que fala
Quando a poesia quer
Eu estou
Se ela não vier
Eu me vou
A poesia estanca
Minha alma Espanca
A poesia se dana
O meu ser Quintana
Quando a poesia voa
Meu olhar Pessoa
Se a poesia chora
Não chorou à toa
Quando vai embora
É porque se perdeu
Se ficar doente
Quem sente sou eu
Quando fala de dor
Essa dor é minha
E se falar de amor
Não vai amar sozinha. 


sábado, 23 de março de 2013

Ironicamente

Solidão não há
Maior que a minha solidão,
Pois estou só comigo
E aqui não há mais ninguém.
Não consigo imaginar alguém
Mais sozinho do que eu.
Escuto apenas meu coração
E o som que a ironia faz:
Este é o silêncio da solidão,
Silêncio de agonia e de paz
Em que a minha paz se perdeu.


sexta-feira, 22 de março de 2013

Colérica


Morde o rabo
A raiva
De quem fez
Morder o rabo
Uma vez
Pra dar cabo
E outra vez
E mais raiva
Que a raiva
Alimenta
E afugenta
O medo
Que é raiva
Entristecida
A saída
O segredo
É sentir raiva
Que raiva
Imediata
É raiva
Translata
Proibida
Para menor
De idade
A raiva mor
De verdade
É infante
Semblante
Imaturo
Do querer
Duro osso
De roer
Raiva dura
De esquecer.